JOÃO PESSOA- Na contramão da tradição das campanhas presidenciais, as equipes de Luiz Inácio Lula da Silva, Lula (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) iniciaram conversas reservadas com emissoras de rádio, TV e veículos impressos para priorizar sabatinas e entrevistas individuais.
O movimento conjunto sinaliza o desejo de ambos de esvaziar os primeiros debates na televisão.
A intenção central das duas principais frentes políticas é evitar a exposição desnecessária e conter os altos índices de rejeição apontados pelas pesquisas. Em um cenário pulverizado, tanto o atual presidente quanto o herdeiro político do clã Bolsonaro temem virar o alvo principal e unificado das candidaturas da terceira via.
O escudo contra a terceira via
Estar à frente nas pesquisas de intenção de voto costuma colocar os líderes em uma vidraça desconfortável. No campo de Lula, o presidente já verbalizou publicamente que não irá a transmissões que “não discutam propostas políticas”. A tendência na ala petista é poupar o chefe do Executivo, confirmando presença apenas no tradicional último debate do primeiro turno, realizado pela Rede Globo.
Do outro lado, a campanha do PL calibrou os passos de Flávio Bolsonaro exatamente pelo retrovisor do adversário. Interlocutores do senador afirmam que ele só comparecerá se Lula estiver presente. Sem o petista no estúdio para dividir o peso dos ataques, a avaliação é de que Flávio se exporia sozinho ao tiroteio de opositores competitivos, como o governador Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan dos Santos (Missão). Em entrevistas recentes, Caiado chegou a declarar que a polarização tenta deliberadamente fugir de um “debate moral”.
Prejuízo ao eleitor e bônus para rivais
Analistas políticos apontam que a preferência por formatos engessados e unilaterais, como as entrevistas de bancada, enfraquece o rito democrático ao privar o eleitor de confrontos diretos de ideias.
Por outro lado, o recuo estratégico gera riscos. Ao abrirem mão do espaço no horário nobre da TV, Lula e Flávio entregam palcos valiosos para que os adversários menores ganhem visibilidade, produzam cortes virais para as redes sociais e explorem o rótulo de “fujões” contra os favoritos.
A trégua no formato de confronto, contudo, deve durar apenas até outubro. Nos bastidores, ambas as campanhas já admitiram que, caso a eleição caminhe para um eventual segundo turno entre PT e PL, a presença nos debates será obrigatória e inevitável pela própria natureza do duelo direto.