A discussão que levou ontem à saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Master, após uma crise sem precedentes no Supremo Tribunal Federal (STF), foi marcada ontem por momentos de tensão. Tudo foi decidido em uma reunião a portas fechadas dos atuais dez ministros da Corte.
Segundo ministros ouvidos pelo GLOBO, ao perceber que encontrava resistência em boa parte dos colegas para seguir no caso, Toffoli acabou cedendo e acertou com os pares que aceitava deixar a relatoria “a pedido”. Em contrapartida, os ministros da Corte recusaram evidências de suspeição e afirmaram reconhecer “a plena validade dos atos praticados” pelo magistrado na condução do caso.
A interlocutores, o presidente do Supremo, Edson Fachin, disse estar satisfeito com o desfecho da reunião. Ao deixar o encontro dos ministros, Toffoli só fez questão de dizer aos jornalistas: foi tudo unânime.
O ministro Dias Toffoli deixou a relatoria do caso do Banco Master no STF ontem mesmo. Em sorteio, o ministro André Mendonça foi definido como o novo relator. A saída de Toffoli foi anunciada após uma reunião convocada por Fachin, com os ministros para apresentar um relatório enviado pela Polícia Federal (PF) a respeito dos dados do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O documento está sob sigilo, mas há menções a Toffoli em mensagens no aparelho.
A reunião, que durou cerca de três horas e foi dividida em duas partes, foi anunciada pelo ministro Edson Fachin após o recebimento de relatório da Polícia Federal (PF) sobre dados do celular de Daniel Vorcaro, dono da instituição financeira, que mencionavam Toffoli.
De acordo com relatos feitos à reportagem, a reunião começou “pesada” e “tensa”, em meio ao agravamento da crise interna provocada pelo envio de informações da Polícia Federal com menções ao nome de Toffoli. O clima era descrito como de “tensão geral” e “climão”, sem um episódio isolado que concentrasse o embate.
Durante a leitura, resistência
No início do encontro, Fachin leu trechos do relatório encaminhado ao Supremo. Em seguida, Toffoli fez uma defesa ponto a ponto, apresentou documentos e buscou rebater as informações que haviam ampliado a pressão sobre sua permanência na relatoria. Depois de sua exposição, os demais ministros passaram a se manifestar.
Segundo esses relatos, Toffoli inicialmente não queria abrir mão do caso. A avaliação predominante entre os colegas, porém, era a de que as pressões — internas e externas — não cessariam e que a melhor saída institucional para conter o desgaste seria sua saída da relatoria. Alguns ministros defenderam, ainda de acordo com presentes, a necessidade de uma resposta clara à sociedade.
‘Alívio geral’
O ambiente começou a mudar quando o próprio relator indicou que aceitava sair, caso esse fosse o entendimento predominante. O gesto foi interpretado como um “alívio geral” e permitiu a construção de um meio-termo. Ao final, os ministros redigiram conjuntamente a nota que oficializou a saída. Interlocutores afirmam que, diante do cenário, Toffoli “não resistiu” à solução negociada.
Apesar da distensão momentânea, integrantes da Corte admitem que o episódio deixará “sequelas crescentes”, com divisão interna e aumento de desconfianças. A avaliação é que o tribunal retorna a um estágio de menor unidade, semelhante ao período pré-pandemia, quando as divergências entre ministros eram mais expostas.
Ainda de acordo com ministros do STF ouvidos pelo GLOBO, um dos magistrados defendeu que a arguição de suspeição não fosse julgada, pois a Polícia Federal não teria legitimidade para fazer a propositura. O relatório da PF não faz esse pedido diretamente, mas sugere ao presidente do STF que a Corte deveria analisar a questão.
Escalada de tensão em Brasília
A saída de Toffoli marcou um dia de escalada de tensões no caso. Além de ter seu nome citado no celular do ex-banqueiro, o ministro admitiu em nota ser sócio da empresa Maridt, que vendeu uma participação no resort Tayayá, no interior do Paraná, a um fundo do cunhado de Vorcaro.
Toffoli disse que declarou à Receita Federal os valores recebidos na negociação e afirmou que “nunca recebeu qualquer valor de Daniel Vorcaro ou de seu cunhado Fabiano Zettel”. A confirmação, porém, intensificou a cobrança da oposição por uma CPI do Master no Congresso.
Lula vê situação como insustentável
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou a aliados que a permanência de Toffoli na relatoria do caso estava se tornando insustentável diante das revelações da Polícia Federal. A interlocutores, o presidente disse que ninguém está blindado de ser investigado, acrescentando que nem ministro do Supremo nem o filho do presidente estão imunes a apurações.
Além disso, Lula disse a mais de um aliado que as revelações expuseram a Corte e que o próprio Supremo deveria agir para se afastar da polêmica.
Validade das decisões
A reunião entre ministros do STF foi marcada por momentos de tensão. O encontro durou cerca de três horas e foi encerrado por volta de 20h20 de ontem. Na sequência, os demais dez ministros da Corte divulgaram nota anunciando a saída de Toffoli da relatoria. O entendimento firmado entre os ministros foi pela extinção da ação de suspeição e pela remessa dos autos a um novo relator, que foi sorteado na noite de ontem, o ministro André Mendonça.
“Os dez Ministros do Supremo Tribunal Federal, reunidos em 12 de fevereiro de 2026, considerando o contido no processo de número 244 AS, declaram não ser caso de cabimento para a arguição de suspeição, em virtude do disposto no art. 107 do Código de Processo Penal e no art. 280 do Regimento Interno do STF”, diz a nota, que acrescenta: “Reconhecem, assim, a plena validade dos atos praticados pelo Ministro Dias Toffoli na relatoria da Reclamação n. 88.121 e de todos os processos a ela vinculados por dependência.”
O texto diz ainda que os ministros expressam apoio pessoal a Toffoli “respeitando a dignidade de Sua Excelência, bem como a inexistência de suspeição ou de impedimento”. Os ministros disseram que Toffoli atendeu a todos os pedidos formulados pela PF e pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
“Registram, ainda, que a pedido do Ministro Dias Toffoli, levando em conta a sua faculdade de submeter à Presidência do Tribunal questões para o bom andamento dos processos e considerados os altos interesses institucionais, a Presidência do Supremo Tribunal Federal, ouvidos todos os Ministros, acolhe comunicação de Sua Excelência quanto ao envio dos feitos respectivos sob a sua Relatoria para que a Presidência promova a livre redistribuição”, afirma a nota.
Após a reunião que definiu sua saída, o magistrado afirmou que a conversa de mais de três horas com os colegas do STF foi “excelente”. No fim da reunião a portas fechadas na presidência do STF, Toffoli passou diante dos jornalistas em silêncio, evitando responder às perguntas sobre se deixaria ou não a condução do caso. Só respondeu quando um repórter perguntou: “Como foi o clima da reunião?”
“Excelente. Tudo unânime”, afirmou.
Solução dupla
A conclusão anunciada pelos ministros resolve duas frentes do caso: de um lado, encontra uma solução para uma crise prolongada acerca das decisões de Toffoli à frente da relatoria, que vinham sendo alvo de questionamentos de parlamentares e de seus próprios pares na Corte após uma série de ações controversas.
Além disso, causaram desconforto revelações como a de que foi assistir à final da Libertadores em uma viagem de jatinho junto com o advogado de um dos acusados e dos negócios envolvendo o resort no Paraná. Ao reconhecer a validade dos atos praticados pelo ministro na relatoria e de todos os processos a ela vinculados por dependência, os ministros tentam ainda evitar que o caso volte à estaca zero.
Mais cedo, antes da reunião, Toffoli havia respondido ao presidente da Corte a respeito do relatório apresentado pela PF na véspera. Após o encaminhamento desse ofício, um pedido de suspeição contra o ministro foi aberto no STF. Na resposta a Fachin, Toffoli negou a suspeição e reiterou argumentos de uma nota divulgada na quarta-feira em que se refere às descobertas contidas no relatório como “ilações”.
A leitura de que o cerco estava se fechando prevaleceu ao longo do dia. Fachin enviou o caso para a PGR, fundamentado por informações da PF ao órgão do Ministério Público chefiado por Paulo Gonet. A PGR analisava ontem três pedidos de suspeição do ministro.
Além do que teve origem no relatório elaborado pela PF, havia uma requisição do senador Eduardo Girão (Novo-CE) e outra do também senador Alessandro Vieira (MDB-SE). O pedido de Girão está parado há quase um mês na PGR e ontem Vieira protocolou solicitação argumentando que existiam indícios suficientes para questionar a permanência do ministro.
Lei orgânica da magistratura
O material encaminhado pela PF ao Supremo Tribunal Federal baseia-se no artigo 33 da Lei Orgânica da Magistratura (Lomam). O dispositivo trata sobre prerrogativa de juízes e prevê o envio dos autos às respectivas cortes em caso de suspeitas.
“Quando, no curso de investigação, houver indício da prática de crime por parte do magistrado, a autoridade policial, civil ou militar, remeterá os respectivos autos ao Tribunal ou órgão especial competente para o julgamento, a fim de que prossiga na investigação”, afirma o texto da lei.
Já a suspeição de um magistrado ocorre quando há dúvidas sobre sua imparcialidade — seja porque ele tem relação de amizade íntima com uma das partes, seja porque tem negócios que podem ser impactados pelo processo
Como Toffoli entrou no olho do furacão do Master?
O caso Master chegou ao STF após a defesa do banqueiro Daniel Vorcaro argumentar que um material apreendido durante a investigação citava um deputado federal — e, por essa razão, o caso deveria tramitar na Corte. Na ocasião, Toffoli foi definido, por sorteio, como relator do processo e determinou que todos os inquéritos relacionados ao banco deveriam ser enviados ao seu gabinete.
O envio do caso ao STF foi criticado por parlamentares da oposição. Um pedido para que Toffoli fosse afastado da relatoria do processo, no entanto, foi rejeitado pela Procuradoria-Geral da República (PGR).
Parlamentares questionaram a parcialidade de Toffoli após o colunista do GLOBO Lauro Jardim revelar que o ministro viajou para Lima, capital do Peru, para assistir à final da Copa Libertadores da América na companhia de um advogado de um dos executivos do Master investigado no inquérito.
Além disso, Toffoli foi alvo de pedidos de afastamento após a revelação de que dois de seus irmãos venderam participação acionária no resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR), para um fundo administrado pelo cunhado de Vorcaro, o pastor e empresário Fabiano Zettel. Ontem, Toffoli admitiu que é sócio da empresa que administrava o resort.
A atuação de Toffoli à frente do caso Master foi marcada por divergências com a Polícia Federal.
Houve desentendimento quando da acareação realizada em dezembro de 2025 entre o empresário Daniel Vorcaro e o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa, seguida do depoimento do diretor de fiscalização do BC, Ailton Aquino.
A delegada da PF que conduziu os depoimentos, Janaína Palazzo, e o juiz auxiliar do gabinete de Toffoli, Carlos Von Adamek, divergiram sobre a condução das oitivas. O juiz auxiliar entregou à delegada uma lista de perguntas de Toffoli que deveriam ser feitas, ao que Palazzo divergiu e afirmou que caberia à PF conduzir os interrogatórios. Adamek, então, ligou para o ministro do STF, que determinou à delegada que fizesse as perguntas da lista como se fossem dele.
Decisão controversa
Em 14 de janeiro, o ministro Toffoli voltou a proferir uma decisão controversa: determinou que todos os materiais apreendidos durante a segunda fase da Operação Compliance Zero, ocorrida no mesmo dia, fossem “lacrados” e “acautelados” nas dependências do STF. Foram apreendidos 39 celulares e 31 computadores.
Diante de críticas, o ministro autorizou a PGR a fazer a extração e a análise de todo o material. No dia seguinte, ele indicou que quatro peritos da PF poderiam ter acesso às provas.
Leia a íntegra da nota do STF
“Os dez Ministros do Supremo Tribunal Federal, reunidos em 12 de fevereiro de 2026, considerando o contido no processo de número 244 AS, declaram não ser caso de cabimento para a arguição de suspeição, em virtude do disposto no art. 107 do Código de Processo Penal e no art. 280 do Regimento Interno do STF.
Reconhecem, assim, a plena validade dos atos praticados pelo Ministro Dias Toffoli na relatoria da Reclamação n. 88.121 e de todos os processos a ela vinculados por dependência.
Expressam, neste ato, apoio pessoal ao Exmo. Min. Dias Toffoli, respeitando a dignidade de Sua Excelência, bem como a inexistência de suspeição ou de impedimento. Anote-se que Sua Excelência atendeu a todos os pedidos formulados pela PF e PGR.
Registram, ainda, que a pedido do Ministro Dias Toffoli, levando em conta a sua faculdade de submeter à Presidência do Tribunal questões para o bom andamento dos processos (RISTF, art. 21, III) e considerados os altos interesses institucionais, a Presidência do Supremo Tribunal Federal, ouvidos todos os Ministros, acolhe comunicação de Sua Excelência quanto ao envio dos feitos respectivos sob a sua Relatoria para que a Presidência promova a livre redistribuição.
Assinam:
Luiz Edson Fachin, Presidente
Alexandre de Moraes, Vice-Presidente
Gilmar Mendes
Cármen Lúcia
Dias Toffoli
Luiz Fux
André Mendonça
Nunes Marques
Cristiano Zanin
Flávio Dino”
ImfoMoney/Agência O Globo