A discussão sobre o fim da escala 6×1 deve ganhar novos rumos nesta semana. Com início marcado para amanhã, série de audiências públicas da comissão especial da Câmara dos Deputados sobre a redução da jornada de trabalho ocorre em um momento em que o tema se consolida como uma das pautas de maior interesse para o governo federal, que tenta capitalizar a possível aprovação da pauta mirando outubro. O debate também ganha impulso com o apoio do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que classificou a proposta como uma “reforma da vida das pessoas” e sinalizou disposição para levar adiante a votação, desde que sejam consideradas as particularidades de setores econômicos que operam sob jornadas contínuas. A audiência pública da comissão especial da Câmara dos Deputados desta terça-feira (12/5), destinada a discutir os impactos econômicos da redução da jornada de trabalho, deve se transformar em um dos momentos mais decisivos da tramitação da proposta que pretende reformular o modelo de trabalho no país. Depois de abrir espaço para debates sobre saúde do trabalhador, qualidade de vida e reorganização das relações laborais, o colegiado entra agora no terreno mais sensível da discussão: o custo da mudança para empresas, cadeias produtivas e setores que operam sob escalas contínuas. À frente da relatoria, Leo Prates (Republicanos-BA) tem reiterado que pretende conduzir a discussão por meio de uma construção pactuada, ouvindo trabalhadores, empregadores, governo e especialistas, numa tentativa de reduzir resistências e construir um texto capaz de avançar politicamente na Casa. O Correio Braziliense ouviu representantes da indústria, especialistas em direito do trabalho e economia pública, além de parlamentares diretamente envolvidos nas negociações, para mapear quais argumentos devem dominar a mesa na próxima semana. O diagnóstico é convergente: o setor produtivo chega organizado, municiado por estudos técnicos e disposto a pressionar por exceções setoriais, transição gradual, compensações tributárias e preservação da negociação coletiva como instrumento central para modular a proposta. Entre as vozes mais enfáticas está a da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam). Em entrevista ao Correio, o presidente da entidade, Antonio Silva, afirmou que o debate precisa considerar a “realidade matemática” da produção nacional. Segundo ele, uma redução abrupta da jornada sem contrapartidas econômicas ou ganhos prévios de produtividade tende a elevar custos operacionais de forma insustentável, especialmente em cadeias industriais que operam em ritmo contínuo. No caso do Polo Industrial de Manaus, o impacto seria ainda mais sensível. “A exigência de novas contratações emergenciais apenas para suprir lacunas nas escalas e manter as máquinas operando pressionará o fluxo de caixa das empresas e corroerá nossa competitividade”, afirmou. Na avaliação da federação, o efeito pode ser perverso: aumento da inflação, retração de investimentos e crescimento da informalidade. A preocupação ecoa em outras federações industriais do país. A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) tem defendido por meio de nota, que qualquer mudança estrutural nas relações de trabalho seja acompanhada por um amplo debate sobre produtividade, desoneração da folha e segurança jurídica para empregadores. No Sudeste, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) também acompanha a tramitação com cautela e reforça a necessidade de que eventuais mudanças considerem impactos sobre competitividade, custo da produção e capacidade de adaptação dos setores intensivos em mão de obra. Segmentos ligados ao comércio e aos serviços sustentam avaliação semelhante e defendem uma transição calibrada para evitar repasses imediatos aos preços. Pressão O alerta chegou a setores altamente regulados da economia. Durante teleconferência de resultados da Latam Airlines, o CEO Jerome Cadier apontou que o fim da escala 6×1, se aplicado sem exceções para categorias específicas, pode comprometer operações internacionais da companhia. Segundo ele, a dinâmica da aviação comercial depende de jornadas diferenciadas para aeronautas e tripulações, especialmente em voos de longa duração, frequentemente superiores a oito horas diárias. A declaração rapidamente passou a circular entre parlamentares como exemplo de setor que deverá pressionar por tratamento regulatório específico. Para o doutor e mestre em filosofia do direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Roberto Beijato Junior, a maior pressão econômica recairá justamente sobre micro e pequenas empresas — segmento que concentra a maior parte dos empregos formais no país. Segundo ele, o encarecimento da mão de obra tenderá a ser repassado ao consumidor, pressionando preços e reduzindo poder de compra. Ao mesmo tempo, empresas sem capacidade de absorver o novo custo poderão reduzir quadros, ampliando informalidade e terceirizações precárias. Na mesma linha, o mestre em direito e especialista em economia do setor público Alessandro Callil de Castro avalia que uma mudança abrupta, sem transição e sem mecanismos de compensação, tende a ampliar o chamado custo Brasil, elevar despesas operacionais e pressionar a inflação. “O debate não é apenas sobre horas trabalhadas, mas sobre como equilibrar proteção ao trabalhador, sustentabilidade empresarial e preservação dos empregos.” Zona Franca No Congresso, a reação do empresariado já se organiza institucionalmente. Presidente da Frente Parlamentar do Empreendedorismo, Joaquim Passarinho (PL-PA) afirmou à reportagem que o setor não pretende interditar a discussão, mas insiste na necessidade de uma escuta ampla. “Não se pode mexer em um tema tão sensível ouvindo apenas um lado. Quando se ouve empregadores e trabalhadores, é possível encontrar um denominador comum”, disse. Nos bastidores, a frente já articula emendas para reforçar convenções coletivas, flexibilizar modelos de contratação e preservar escalas especiais em setores específicos, como saúde, comércio em feriados e atividades essenciais. Enquanto isso, parlamentares favoráveis à mudança tentam construir pontes com o setor produtivo. Integrante da comissão especial, Saullo Vianna (MDB-AM) articulou a realização de uma audiência pública em Manaus, marcada para o próximo dia 22, reunindo mais de 70 instituições entre representantes da indústria, comércio, turismo, serviços e sindicatos. A proposta é justamente ouvir quem gera emprego e quem vive a rotina da escala 6×1, especialmente em uma economia fortemente sustentada pela atividade industrial da Zona Franca. No fim da fila de pressões — mas ainda dentro do radar do colegiado — aparece também o setor público. Estudo divulgado na sexta-feira pela Confederação Nacional de Municípios calcula impacto