A Prefeitura de Pau dos Ferros, sob a gestão Marianna Almeida (PSD), destinou R$ 62.415.591,75 para a área da saúde em 2025, conforme dados oficiais da execução do portal da transparência municipal. Dentro desse volume de recursos, contratos para aquisição de medicamentos passaram a chamar atenção, especialmente o firmado com a empresa Dismed, alvo da Operação Mederi, que investiga possíveis irregularidades no fornecimento de medicamentos ao poder público.
Somente em 2025, a Dismed faturou R$ 376.210,70 da Prefeitura de Pau dos Ferros, valor referente ao fornecimento de medicamentos à rede municipal de saúde. O contrato foi firmado por meio de adesão à Ata de Registro de Preços do Pregão/Adesão nº 1/2025, procedimento encerrado com valor global estimado em R$ 592.639,00, segundo o Portal da Transparência do município. A contratação ocorreu pela Secretaria Municipal de Saúde, com recursos de transferências federais do Sistema Único de Saúde (SUS), destinadas à manutenção das ações e serviços públicos de saúde.
Os dados disponíveis indicam que a adesão à ata teve como objetivo a aquisição de medicamentos injetáveis para atender as Unidades Básicas de Saúde de Pau dos Ferros. A ata utilizada foi originalmente gerenciada pela Prefeitura de Mossoró, modelo que passou a ser conhecido regionalmente como a chamada “matemática de Mossoró”, em referência a contratações com volumes e valores considerados elevados quando comparados à realidade dos municípios aderentes, além da suposta cobrança de propina pelo prefeito Allyson Bezerra (UB), investigada pela Polícia Federal.
Somente em 2025, a Dismed faturou R$ 376.210,70 da Prefeitura de Pau dos Ferros, valor referente ao fornecimento de medicamentos à rede municipal de saúde.
As quantidades descritas em notas fiscais vinculadas ao contrato, no entanto, destoam da realidade do município, que possui cerca de 30 mil habitantes. Entre os itens adquiridos constam 29 mil ampolas de Benzetacil 1.200.000 UI, ao custo de R$ 152 mil, além de 45 mil ampolas de Dexametasona.
Quando os números são distribuídos ao longo do ano, a desproporção se torna ainda mais evidente. O volume de Benzetacil registrado nas notas fiscais corresponderia, em média, a 2.416 ampolas por mês ou aproximadamente 80 ampolas por dia. Já no caso da Dexametasona, a média seria de 3.750 ampolas mensais ou cerca de 123 ampolas por dia.
O medicamento aparece ainda com preços distintos observada em outras compras públicas. Conforme registros do Portal da Transparência, o município adquiriu o medicamento ao custo unitário de R$ 9,19 em 2023 na mesma empresa.
Dois anos depois, em 2025, o mesmo medicamento foi comprado, através de ata de registro de preços da Prefeitura de Mossoró, ao valor unitário de R$ 5,25, resultando em uma redução de quase 100% no valor adquirido. No âmbito da Operação Maderi, foi constatado, pela Polícia Federal, que empresas fornecedoras descumpriram contratos, deixando de entregar as medicações adquiridas pelo poder público, a disparidade dos preços no intervalo de dois anos chama a atenção. A questão não era o valor, mas o volume da compra e a ausência da entrega do medicamento. A Prefeitura de Pau dos Ferros não é ainda alvo de investigação da PF.
A situação ganha ainda mais relevância diante do papel da Benzetacil. No SUS, o medicamento é considerado o tratamento padrão ouro para a sífilis, sendo amplamente utilizado na rede pública, inclusive no combate à sífilis congênita, em gestantes e seus parceiros.
O caso chama atenção também pelo fato de a Dismed integrar o rol de empresas investigadas na Operação Mederi, o que reforça a necessidade de acompanhamento e apuração por parte dos órgãos de controle, como o Ministério Público e o Tribunal de Contas. As diferenças de preços, os volumes contratados e a origem da ata de registro de preços reacendem o debate sobre transparência, planejamento e uso racional dos recursos públicos destinados à saúde no município de Pau dos Ferros.
Diário do RN/Carol Ribeiro